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Jane Vitória de Queiroz Guzmán
formou-se em Biblioteconomia e Documentação pela UNIRIO; Graduada em Letras pela UERJ e pós-graduada em Ensino e Assistência de Enfermagem pela UFRJ. Foi bibliotecária da Escola de Saúde da Marinha e do Centro de Estudos do HNMD – Hospital Naval Marcílio Dias. Atuou como membro do Conselho Editorial dos Arquivos Brasileiros de Medicina Naval. Foi Presidente da APCIS/RJ de 2005 a 2010.

Jane pode ser encontrada em jguzman@apcisrj.org e no Facebook / Jane Vitória Queiroz Guzman
Série Trajetórias 3

Depoimento dado à APCIS no dia 21 de abril de 2013 por Jane Guzmán.

APCIS - Como você escolheu a carreira de bibliotecária?
Jane – Eu não fiz logo Biblioteconomia. Estudei francês na Aliança Francesa até o último nível, até o último Nancy. Aproveitei então esta boa base e fiz um curso de Letras na UERJ. No início trabalhei uns tempos como tradutora, dei aulas, fui secretária da Embaixada da Costa do Marfim...

APCIS – Mas como apareceu seu interesse por Biblioteconomia?
Jane – Comecei a ter contato com a área de Informação aos poucos. Trabalhei no INPI, que é o escritório de patentes do Brasil aqui no Rio e mais tarde cheguei à Coordenação de Informação Rural, do Ministério da Agricultura, em Brasília.

APCIS – A Coordenação foi famosa! Em que época foi isto, mesmo?
Jane – Nos anos 70, no auge dos sistemas internacionais de Informação. Na Coordenação de Informação Rural eu era a secretária de Jaime Robredo Nota 1 . Quem estava também por lá nessa época era Yone Chastinet Nota 2 . Foi então que começou meu namoro com a Biblioteconomia. Os escritórios eram abertos, em baias e eu ficava encantada com as discussões que ouvia.

APCIS – Aí você foi estudar...
Jane. Não, calma, falta muito para contar até chegar lá! Voltei ao Rio e fiz uma pausa, porque precisei dar mais assistência aos dois filhos pequenos. Assim que eles cresceram um pouco comecei a ficar impaciente para voltar ao ambiente de trabalho, ao convívio com colegas, mas não queria voltar para o francês.

APCIS – Voltando lá ao que você disse de Brasília, a escolha da Biblioteconomia como segunda carreira foi por causa da Informação Rural?
Jane - Até certo ponto. Digamos que a raiz foi essa. Mas tive muita influência de Gilda Nota 3, minha irmã, que trabalhava no CIN, que era o máximo na área de informação no fim dos anos 70. Ela era entusiasmada. Assim que comecei a estudar me apaixonei também pela profissão.

APCIS - É mesmo? Logo que entrou?
Jane - Exato. Foi amor à primeira vista e dura até hoje.

APCIS - O que causou o encantamento?
Jane – O que me fez ficar encantada não foi bem o curso... Foi, sobretudo, o relacionamento dos profissionais com o público. Dei sorte de encontrar, na biblioteca da própria Escola, o protótipo do bom profissional, especialmente a Ana Virgínia Nota 4.

APCIS – A Ana Virginia da BN?
Jane – Exatamente. Ela ainda era estagiária e já naquele tempo prometia!

APCIS – Quem mais lhe deu motivação?
Jane – Ah! Fiz um estágio com Lidia Alvarenga Nota 5 numa organização internacional que lidava com água, esgoto... a SATECIA Nota 6.

APCIS – Pelo jeito como você disse isso, foi bom mesmo. E por quê?
Jane – Foi o primeiro contato que tive com organização de acervo. E porque Lidia era objetiva demais, ia ao principal, sem se perder nunca. Ela sabia lidar bem com a chefia e com os subordinados – eu e um auxiliar.

APCIS – Mudando de assunto, me fale um pouco sobre sua experiência como monitora de catalogação.
Jane - Tenho tanta mania por usuários, que pensam que nunca me dediquei à catalogação. Mas fui monitora da Professora Maria Teresa Reis Nota 7, por dois períodos.

APCIS – Você, então, foi da UNIRIO. Mais alguma coisa dos tempos de estudante?
Jane – Dos professores, adorava a Orsely(Ferreira de Brito), de Filosofia, o Luiz Otávio (Ferreira Barreto Leite), de Literatura e era a queridinha nas aulas do Hasselmann(Emmanuel Adolpho Pinheiro Hasselmann) . Gostava tanto da matéria que pensei até em ir estudar Paleografia na Espanha.

APCIS – Como foi sua passagem para o HNMD- Hospital Naval Marcílio Dias e a área de Saúde?
Jane - No último período fui estagiar na Escola de Saúde da Marinha, no Lins.

APCIS – Bom, depois desse teste você foi contratada?
Jane – Nem pensar. Era a época de Figueiredo e ninguém contratava no Serviço Público. O fim de meu estágio coincidiu com a formatura, que era em dezembro. Então me despedi da chefia e fiquei em casa, tranquila. Aí aconteceu uma coisa engraçada: - Depois de um mês tocaram a campainha e era um pelotão de fuzileiros navais que vinha buscar a “desertora”. Foi apenas uma pequena falha de comunicação!!! (E aí Jane dá aquela risada que todos conhecem!). Pois, voltei feliz da vida, continuava empregada. Acabei fazendo concurso e ficando no HNMD por 32 anos.

APCIS – Então, vá contando mais do HNMD.
Jane – Quando digo entrei como estagiária, não pensem numa biblioteca. Entrei para uma estante de livros e uma mesinha. Dividia até a máquina de escrever com o secretário da Escola. Ah, mas desse limão fiz uma limonada. Plagiando o Alex Atala Nota 8 numa entrevista ao Roda Viva, em dez 2012, quando ele referiu-se a um chef francês fora do circuito principal, “mergulhei no pouquinho e no pobrinho que tinha” e tirei leite das pedras. Às vezes, carência total é bom para incitar a criatividade e criar heterodoxia. Abri a “estante” e parti para a guerra, comecei a emprestar anotando num livrão e agitei. Treinamento de usuários veio logo. Registro e tratamento técnico só veio muuuuito tempo depois. Dei uma sorte danada, que a estante ficasse na sala dos professores. O contato tão informal com eles foi ótimo. Fui me enturmando e logo ganhei status de corpo docente. Fiz parte do conselho de classe, da comissão de elaboração dos manuais técnicos e de vídeos de treinamento. Eu era um deles, tanto que minha pós-graduação foi pela Escola Ana Nery.

APCIS – Mas você é conhecida como Jane, do HNMD...
Jane - Saí da Escola de Saúde depois de oito anos, porque na década de 90 me transferiram para o hospital e lá fiquei até me aposentar, em 2012. Embora fosse dentro do mesmo complexo de Saúde, a realidade era totalmente diferente do que eu tinha vivido, até então.

APCIS –Eram diferentes, mas em que sentido?
Jane – Minha nova clientela tinha outro tipo de exigência, que me obrigou a usar outros instrumentos de informação. De saída tive que aprender a lidar com o Index Medicus e a Excerpta Medica, que eram as bibliografias da época. Levava uma semana inteira para fazer uma pesquisa! Tinha muitas questões que não conseguia resolver sozinha. Foi quando precisei da ajuda do GBIDB (Grupo de Bibliotecários em Informação e Documentação Biomédica). A Madalena Nota9 foi minha grande professora.

APCIS - Ela lhe deu as ferramentas para seguir sozinha.
Jane – Se pudesse mensurar, calcularia que 80% do que precisei para tocar a biblioteca do HNMD aprendi com ela e com os colegas do Grupo. Recebi apoio de todos, o GBIDB foi uma escola. Naquela época, o pessoal mais experiente falava e eu ficava só caladinha, escutando. Traziam sempre coisas novas. Anotava tudo de que nunca tinha ouvido falar e corria depois para buscar os detalhes, tirar as dúvidas. Ia adaptando as ideias ao meu cotidiano, transformando, eu aplicava mesmo... Cada vez a gente aperfeiçoava mais o trabalho desenvolvido em nossas bibliotecas. O que acontecia também, que é característica da Associação até hoje, é que nos intervalos do cafezinho trocava-se muita figurinha com os colegas. As dúvidas e os problemas iam sendo resolvidos ali mesmo.

APCIS – Quando você começou a tomar parte da Diretoria?
Jane – Fui secretária por uns três mandatos, no mínimo. O fato de ser secretária me dava a chance de ficar sabendo com precisão de tudo que acontecia e de tudo que era decidido, por ter que fazer os relatórios e as atas.

APCIS – E você decerto desenvolveu algumas habilidades a partir daí.
Jane – Desenvolvi a capacidade de síntese, porque tinha que extrair de tudo que tinha sido dito o que era preciso guardar, o que ia gerar ações, o que ia fazer o Grupo progredir.

APCIS – Quando você se sentiu preparada para a coordenação? Foi chamada, lhe convidaram, você se apresentou, como foi?
Jane – Chegou um momento em que eu tomava parte de organização de cursos, de organização de passeios, de muitas coisas mais. Saí daquilo de só escrever atas, mas com sinceridade quando fui convidada não me achava preparada. Mas às vezes a gente tem que enfrentar as dificuldades. Contei mais uma vez com a ajuda da Madalena e da Célia Lobo. Nós formávamos um trio complementar e unido. Madalena com todo o conhecimento técnico de Informação em Saúde, Célia com toda a bagagem de planejamento e definição de políticas e eu com meu atrevimento, herança de meus avós.

APCIS – Desta experiência de coordenadora, qual foi a melhor parte?
Jane – Minha experiência dentro do GBIDB foi muito semelhante ao que já foi relatado por Célia Lobo e Elisabeth Schneider em suas entrevistas. (Ver também estas entrevistas aqui na Série Trajetórias, no Portal da APCIS/RJ) Dos tempos de APCIS, o que me marcou mais foi a criação do Infosaúde e dos anos em que ele durou e a organização dos ENBIBs, principalmente do quarto, em Petrópolis, em 2007. (Ver também os sites do ENBIB - Encontro de Bibliotecas Biomédicas do Rio de Janeiro, aqui no Portal da APCIS/RJ)

APCIS – E o que passar para os mais jovens, como experiência? Você pode falar de algum aspecto da participação na diretoria de uma entidade de classe que venha a ser útil para a vida profissional de qualquer um?
Jane – A participação em qualquer posição numa entidade de classe nos dá o sentido claro de pertencimento a uma categoria. Participar na diretoria desenvolve ainda mais nossa capacidade de dialogar e, sobretudo, de obter cooperação dos colegas, sem que haja hierarquia ou obrigatoriedades envolvidas. É uma arte, é preciso diplomacia para levar os colegas a acreditarem no trabalho coletivo. Unindo talentos diferentes consegue-se sempre bons resultados, como os Músicos de Bremen.



ILUSTRAÇÃO: http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Musicos_de_Bremen

NOTAS

 

Nota 1: Jaime Robredo. Falecido 28/09/2011. Ver http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4783264E5

Nota 2 Yone Chastinet. Profissional com intenso envolvimento em grandes projetos nacionais.  Entre outras atividades, foi diretora do IBICT (por volta de 1984); Programa Nacional de Bibliotecas Universitárias (+-1988) Foi coordenadora do Programa Prossiga (1996 (?) até 2003).

Nota Gilda Gama de Queiroz. Bibliotecária do Centro de Informações Nucleares no período 1975-1999 e do INIS – International  Nuclear  Information  System/IAEA entre 2000 e 2005 é especializada em marketing da informação. É colaboradora da APCIS/RJ desde 2006.

Nota 4  Ana Virginia Teixeira Pinheiro.   Bibliotecária e Documentalista da Fundação Biblioteca Nacional (desde 1982) e Professora de História do Livro e das Bibliotecas, na Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO, desde 1987), é Mestre em Administração Pública (FGV/EBAPE) e Especialista em Análise, Descrição e Recuperação da Informação (UNIRIO), e em Administração de Projetos Culturais (FGV/EIAP). De seus trabalhos publicados, destacam-se Que é livro raro? (1989) esgotado, pesquisa que lhe valeu o Prêmio Biblioteconomia e Documentação, do Instituto Nacional do Livro, A ordem dos livros na biblioteca (2007) e Almanaque Tipográfico Brasileiro (2009). Fonte: Lattes. http://buscatextual.cnpq.br/

Nota 5 Lidia Alvarenga   Graduação em Biblioteconomia Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG (1968), mestrado em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1984), doutorado em Educação pela UFMG  (1996) e pós-doutorado, School of Library and Information Science da Indiana University, Estados Unidos (2005-06). Professora no Departamento de Organização e Tratamento da Informação da Escola de Ciência da Informação, UFMG, atuando na graduação e pós-graduação.  Fonte: Lattes. http://buscatextual.cnpq.br/

Nota 6 SATECIA (Programa de Asistencia Técnica para el Desarrollo Institucional de Empresas Estatatales de Saneamiento)

Nota 7  Maria Teresa Reis Mendes foi professora de catalogação da UNIRIO.

Nota 8  Alex Atala  é um chefe de cozinha brasileiro, que mantém o restaurante D.O.M.  em São Paulo. Em abril de 2012, o restaurante DOM foi classificado no 4º. Lugar entre os melhores restaurantes do mundo na lista S.Pellegrino World's 50 Best Restaurants, publicada pela revista Restaurant.

Nota 9  Maria Madalena dos Santos foi bibliotecária da Academia Nacional de Medicina e da Clínica São Vicente. Participou ativamente do GBIDB (Grupo de Bibliotecários em Informação e Documentação Biomédica) até os tempos de APCIS/RJ.

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